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22.7.12

      Alguém disse um dia que eu falava como se estivesse debaixo de água. A verdade é que não entendi muito bem, será que é a minha voz ou será que nem sequer me ouvem. Talvez haja uma terceira opção, porque falar debaixo de água pode soar bem, mas o que as pessoas dizem nunca é aquilo que querem dizer, talvez o que eu diga soe àquilo que querem ouvir, tu só és bom quando dizes o que os outros desejam. Imagina um rio, de água turva, o que está por baixo nunca irás ver apenas se mergulhares, mas sabes que é um rio e que tem água e que se transforma em  algo grande, é isso que sabes. Talvez devesses mergulhar, não há pedras prometo.
      Alguém me disse também um dia, que tu parecias sempre uma sexta à noite, essa eu entendi, e gostava de te dizer que é também o que acho, apesar de saber que as sextas á noite são muitas vezes explosões e outras vezes fantasmas, ainda há aquelas vezes que és camaleão, em que trocas os animais da palavra e pedes o cigarro abençoado, depois...depois.
“Deita-te aqui”, disseste tu, “Eu quero ir lá fora, não ouves o vento?”, lembras-te do cheiro que o vento deixa na pele? O vento destrói-me o cabelo e eu nem quero saber, o cigarro não acende e eu não quero saber, tu estás nu na minha cama e eu quero que te fodas, tu estás nu na minha cama e eu quero que respondas “Vês o Rio? É aquele. Veste-te. Vem comigo”,  Eles dizem que falo como debaixo de água, mas eles nunca ouviram o rio.
       E tu nunca o disseste, mas antes que o digas, eu vou mostrar-te o que está no fundo.

“Isto é tudo teu?” .
“Não, isto é do mundo”.

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