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7.3.12

Erva Príncipe.

Doentes do coração dançam na enfermaria. Dançam descontrolados, passos lentos de norte para sul passando de este para oeste sem ritmo combinado. São nove doentes, não dez, não oito, contei 9 ao todo. Estão vestidos com umas batas azul-bebe , estas com um rasgo nas costas que combinam com o sofá de pele que não parece ter sido passado a ferro, pelo menos nos últimos dez anos , que se encontra encostado à parede direita da sala.
A sala é branca, fria, doente, nada de quadros nem pinturas, nada de tapetes nem flores. É uma sala para doentes do coração. Três macas limpas e demasiado bonitas para serem utilizadas estão encostadas ao lado esquerdo da sala, o lado onde entra a única e mais pura luz do espaço. Duas portas nos extremos encerram-na  e uma delas está totalmente ferrugenta e inutilizável. Na outra está uma secretaria excessivamente atulhada de porcaria, assim como a senhora de meia idade sobre ela, esta usa uns óculos de bico de um cor -de -rosa -qualquer -demasiado –pomposo e um cabelo -enrolado-demasiado –lacado, está a escrever como se estivesse a martelar coisas que servem apenas para empilhar na sua secretaria unicamente para esta ser chamada de “cemitério dos papéis sem utilidade”.
O único rádio do edifício inteiro apenas toca uma música de quatro senhoras de coro, uma música que está no limbo entre o doentio e o demasiado-feliz-para-para-estar-realmente-feliz, o dia todo e todos os dias . A única TV do edifício inteiro está também naquela sala, aliás provavelmente todos os seres vivos daquele edifício  estão naquela sala, e caso te estejas a perguntar se essa TV apenas apanha um canal, não, na realidade não apanha nem um, mas é demasiado engraçada para ir para o lixo, por isso, agora é um aquário.
Alguns dos doentes tem a cabeça rapada mas sem sinais alienígenas , outros, principalmente as senhoras, possuem cabelo, este pelos ombros, liso e preto como arroz que ficou 3 horas e um quarto ao lume. Todos parecem clones de clones que não aprenderam a dançar , e que apenas se movem e descobrem novos tendões e nervos em hibernação.
Uma bola vermelha de plástico que mais parece um balão empalhado de um animal do Museu dos animais empalhados rebola desde a entrada utilizável até perto de um dos doentes, nisto a senhora de óculos de bico desliga o rádio, e o som do “click” parece um tornado naquele barulho silencioso. A bola aparece como a cura do cancro e todos a olham soberbos sem olhos de entendimento, apenas com olhos de “ um objecto pré-histórico está a dois centímetros de mim”.
Tudo para, moscas param de respirar, pés param de mexer, ossos param de estalar, sons mudos deixam de se ouvir. Uma criança vem atrás da bola. O rapaz ainda nem tem 10 anos e parece já um relvado interior de uma casa com jardim interior de um velho a recuperar de uma dor interior. Está vestido com uns calções verde-erva vincadíssimos (com repetição de íssimos durante as próximas 9 horas ), uma camisa branca e um pólo  axadrezado de dois tipos de verde.  A pele dele é branca mas não me consigo lembrar da sua cara, talvez não tivesse cara, e talvez as pessoas sem cara não sejam assim tao invulgares.
O rapazito pega na bola com as duas mãos em desenvolvimento e joga-a para um dos doentes do coração, o mais velho. Os outros afastam-se achando que a “bomba” vai explodir, mas o velho olha para ela, e agora com uma expressão qualquer joga-a de novo para o miúdo.  “Obrigado Senhor”,  ouve-se uma voz seriamente angelical e comprometida. Saiu a correr, com medo de perder a infância. Os doentes seguem-no com olhar, permanecem quietos, distribuem informação telepática uns com outros e ouve-se de novo um ”click” estrondoso. A música das meninas de coro volta a encher cada metro quadrado do espaço e os donos dele continuam a dançar, mas agora de uma forma harmoniosa sem tendões presos. Estão coordenados com o ritmo, ou pelo menos estão a assistir a uma aula de dança imaginária. Estão lá, naquela sala, os doentes do coração, e agora estão ao menos coordenados e fora de perigos cardíacos.
O velho cai, a música para , pequenos espasmos dão lugar á sua dança. Todos os outros doentes se acham no direito, e aliás, após aquela troca de emoções cilíndricas, no dever, de o imitar, de dançar na horizontal. No silêncio, ouvem-se costas nuas a colar no chão, ouvem-se mini espasmos de 9 corpos, o doente do coração mais usado morreu, os outros fingiram-se de mortos , todos dançaram.

5 comments:

Luís Freitas said...

Se eu pagar bilhete e me sentar numa plateia vazia, tu sobes ao palco para me falares em qualquer pensamento ou ideia que tenhas? Qualquer coisa. Espero que fales só ate que te canses ou ate que a voz te doa. Eu sem duvida que vou ver o espectáculo ate ao fim.

Inês Soares said...

Por favor nao te limites a aplaudir, intervém. Gostaria muito.

Luís Freitas said...

Partilhemos o palco então!

DonJuan said...

"Ande, tenga un Sugus de limón, que lo arregla todo"

MónicaFonseca. said...

As cortinas abrem-se, e os espectadores batem palmas :)