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18.2.12

O Hombre

I
Um Homem que come citrinos, daqueles com roupas e tudo. Vive sempre na Tailândia, de dia e de noite. Gosta de beber martinis com azeitona verdes passadas e de ter um Cadillac vermelho, gosta de ter sempre transporte e de ter uma mulher em cada cidade – É um cabrão de um sortudo num sortido de fêmeas. Tem uma camisa para cada ocasião e não se importa quando têm buracos do tamanho de crateras.
Mas este homem tem um contrato. É um contrato discreto com merdas que ninguém lê, mas com algo que quase todos querem, é um deus com poderes para quase tudo, e com alguma facilidade em mudar as regras, mas isso é ele não sou eu. Não cria relações duradouras, nem tem lareira em casa, ele não gosta do cheiro a cigano, não tem um telemóvel, nem um computador, também não tem quarto mas tem uma casa de banho e um contrato. É minha obrigação explicar que contrato é esse? Talvez seja, mas ainda não me apetece.
Duvida de todos os deuses, duvida de mim e de ti, duvida dos homossexuais  e dos travestis,  das veias  e dos tailandeses, não, diz ele quando lhe perguntam como gostaria de desconstruir um mapa, não gostaria, foram eles quem  os construíram e está tudo fora do sítio.
O hombre não é fã de demonstrações públicas de afecto, não porque não gosta, mas porque não pode, sente-se demasiado estúpido a fazê-lo, e a primeira vez que descobriu foi durante uma viagem a um sítio quente. Estava tão quente que o seu corpo desesperava por algo a rondar os 0 graus, e que fosse benzido por um deus qualquer com a capacidade de congelar o cérebro, neurónios e fragmentos de memórias, que congele sem lavar tudo durante um curto período de tempo. Com o gelo a desconstruir-se na sua mão, com a mão a ficar roxa, o sangue concentra-se todo naquela zona sensível e erecta e está capaz de esmagar um King Kong tendo, mesmo assim, prazer. O prazer foi-se e a mão estava dormente, e uma mulher belíssima de lábios tomate maduro, passou-lhe a mão pela cara como os gatos fazem quando precisam de mimos adicionais
Numa noite, em que as prostitutas andavam à caça na feira de diversões do bairro, havia homens com fome e homens casados. Os homens casados comiam sandes e brincavam às famílias e os homens com fome refletiam as luzes vermelhas e espreitavam sem pagar. No meio da multidão o hombre avista uma barraca onde se ganham prémios. Ganhou o Mundo num deles. Tinha agora um papel, um contrato que assinou no momento em como o mundo lhe pertencia, em como tudo, desde o mais pequeno micróbio ao mais devastador desastre tinham a sua rúbrica estampada. Menos o amor, ele não assinou o amor, esse era o boneco do lado esquerdo, e ele falhou. Mas tinha o mundo.


7 comments:

Luís Freitas said...

Isto foi escrito por ti?

Inês Soares said...

Hum hum. Foi sim. :) É o principio de uma história que ainda tem muito para correr.

Luís Freitas said...

Então continua porque deste-lhe um inicio promissor.

O teu blog é um elogio à simplicidade e ao bom gosto, parabéns ;)

Inês Soares said...

Obrigada! É como uma homenagem ás coisas que as vezes são mais que coisas. (Percebes?)

Luís Freitas said...

Percebo, as vezes existem coisas que são tanta coisa, pequenos nadas que podem significar um mundo.

Tens sensibilidade no que escreves Inês...

Inês Soares said...

Gosto muito do teu cabelo !

Luís Freitas said...

Muito obrigado, como deves imaginar nem todas as pessoas o elogiam, a maior parte manda-me cortar ;D