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29.2.12

Canções mexicanas, era este livro que me andava a assustar e que por esse motivo eu tinha de o ter, tinha de o sentir, de ter a certeza que toda aquela magia negra realmente existia e que provavelmente eu ia beber dela. Mas não estava a espera de sair da livraria sem as canções mexicanas na mão, não estava a espera.
 Na secção de teatro e poesia não estava. O livro não estava, mas estava outra coisa. Eu não queria olhar, até porque não havia nenhum motivo suficientemente excitante para olhar , mas olhei. Olhei e não devia ter olhado, provavelmente a esta hora já tinha as canções mexicanas no armário. Lembro me da camisola dele, tinha riscas, não daquelas das manifestações homosexuais, eram riscas daquelas que os homens crescidos usam, aquelas que são sólidas e tem cores bonitas sem gritar.
Estava a 3 metros dele, e o fio não quebrava. A poesia de merda não me chamava, e eu tive de fingir que estava a ler um texto de um teatro qualquer que dá tesão a crianças. Podia ter me ido embora, mas e as canções? O Gonçalo M Tavares ia ficar triste se não as lesse.  Tinha de as procurar  o mais depressa possível, pagar o livro à senhora mais velha e sair, e não podia olhar para trás, nem decidir se queria um embrulho, era pagar e sair.
 A merda do livro não estava em lado nenhum, nenhum, nenhum. O cabelo dele era tão brilhante, e os livros que ele levava de certeza que estavam seguros.
Aquelas escadas eram escuras, era impossível encontrar o dono do fio que não quebrava.
Encontrei, e ele era o empregado do mês. E eu a cliente do dia que não encontrava o livro do ano.
Precisas de ajuda? Preciso, preciso que me beijes e que me rasgues a roupa aqui mesmo nestas escadas escuras e que deixes esse livros todos espalhados aí no chão e que me beijes e que me leves contigo para casa, quero roubar te o cheiro da manhã e preciso que me beijes.
 Sim, preciso. Na verdade estava a procura das canções mexicanas, mas não as encontro.
Pois o livro dele não chegou, a editora deve estar atrasada. Mas eu também achei estranho visto que o short movies. O short movies?! E a Viagem à Índia. A Viagem à índia?! Chegaram logo. Deve ser isso, um atraso.
Pois, deve ser isso. Um grande atraso. Um gigante atraso. Um super atraso. Um atraso do tamanho de todos os atrasos do mundo. Podia esperar na tua casa. E quando o atraso acabasse eu esperava mais um bocadinho .
Ele voltou para o poiso, e eu fingi que estava com vontade de comprar um livro de viagens para o Paquistão. Para o Paquistão? Devia ter vergonha. Mas não tenho, tenho pena.
Ficou a espera que dissesse Boa Noite empregado do mês que troca mensagens telepáticas comigo. Eu não disse. Até porque aposto que ele é o único empregado daquela loja.
Sou a rapariga que não quebra o fio e fiquei sem as canções mexicanas

5 comments:

Luís Freitas said...

Aplausos!

Inês Soares said...

Vénia dupla para si !

MónicaFonseca. said...

Apaixonaste-te foi? Ou foi um momento qualquer, num dia qualquer a uma hora qualquer,naquela livraria quase perfeita, mas não tão perfeita porque não tinha o livro de canções?


Encantas-me.

Inês Soares said...

Apaixonei me naquele momento, foi mesmo estranho. Mas dexei-o fugir. Teve de ser.

MónicaFonseca. said...

Fizeste bem, os momentos fugazes são os mais puros e loucos.